Gonçalo Junior fala sobre Milo Manara e a subversão pelo prazer

Em meio século de carreira, o italiano Milo Manara (1945) se transformou no mais polêmico e censurado autor de quadrinhos do mundo, graças aos seus quadrinhos cheios de nudez, sexo e ideias para lá de subversivas. Seus álbuns foram e ainda são vetados em dezenas de países. Mas, isso jamais fez o quadrinista recuar. Pelo contrário. Aos 72 anos, mantém-se ativo, na produção de graphic novels que continuam a desafiar a moral e as religiões – dois de seus alvos preferidos.

manara_00O livro Milo Manara – Subversão pelo prazer, do jornalista Gonçalo Junior (autor do aclamado Guerra dos Gibis, publicado pela Companhia das Letras), é revelador quanto a mapear a produção do artista, os mais importantes momentos de sua vida e a luta incansável contra a censura.

sobre-goncalo-350x300Com o selo da Editora Noir, em 304 páginas indispensáveis para quem estuda ou é fã de histórias em quadrinhos, Gonçalo não escreve só a biografia do maior gênio do erotismo dos quadrinhos mundiais em todos os tempos. O que se tem nesse volume é uma mistura de perfil, impressões do artista e do autor, análises e relatos de fatos que marcaram sua carreira, a partir de suas memórias e entrevistas.

No livro, você relata de forma muito pessoal sua relação com Milo Manara. Como foi seu primeiro contato com o trabalho do artista? Ele impactou de alguma maneira na forma como você consumia quadrinhos na época?ShowImage
Conheci os quadrinhos de Manara pela lendária coleção Opera Erótica, criada na década de 1980 pela editora paulistana Martins Fontes. Eram álbuns “gigantes”, quase do tamanho tabloide, impressos em papel de qualidade acima da média. Eu curtia toda a coleção, que tinha Magnus, Rotundo e muitos outros. Mas O Clic era o mais impactante de todos. Nessa época, eu vivia intensamente a era das graphic novels, das minisséries de luxo, das revistas da Circo (Chiclete com Banana e Circo), Porrada, Animal e tantas outras que traziam para cá o que havia de vanguarda no Brasil, nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa. Fui um privilegiado. Manara entrou nesse contexto como um artista completamente transgressor, provocativo, subversivo. E não um mero pornógrafo, como se dizia.

Você sofreu algum tipo de “preconceito” por consumir esse tipo de arte, que muitas vezes é visto como subversivo?
A noção reinante, inclusive de quem escrevia sobre quadrinhos nos jornais, era que Manara fazia “apenas” pornografia. E, por isso, eu acabava consumindo seus quadrinhos em casa, quase às escondidas. Não levava para a Faculdade, como fazia com as graphic novels. Nem o recomendava como leitura a amigos ou amigas, pois a reação era sempre a mesma, de chacota. Diziam, com um sorriso maroto: “Hummm, você gosta de pornografia?” Não tinha saco para explicar que Manara era bem mais que isso. Assim como Crepax, Rotundo, Serpieri etc, seus quadrinhos tinham pelo menos três níveis de leitura, de mensagem, além do sexo em si.

Foram essas experiências que levaram você a escrever esse livro?
Exatamente. Eu tinha essa noção do valor artístico de Manara, dele ser um provocador. E, ao ler tudo, absolutamente tudo que ele fez, eu tive certeza que as minhas impressões tinham sentido. O livro não deixa de ser uma provocação minha, do meu desejo de contestar quem trata Manara com superficialidade ou moralismo hipócrita.

manara_01Conhecer Manara pessoalmente mudou de alguma forma a maneira como você via ou interpretava o artista? Teve algum fato curioso desse encontro que ficou de fora do livro?
Rapaz, foram duas horas de contato e que valeram muito a pena. Eu fui o mediador de um papo entre ele e fãs brasileiros, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro. Eu estava supergripado, com uma tosse infernal, e ele com febre, bem resfriado. Mas, no fim, deu tudo certo. Toda a impressão que tinha dele como artista e do que pensava de sua obra se confirmou. Manara lida com o que faz de modo muito elegante, a partir do ponto de vista que tudo aquilo é arte. Arte erótica. Mas arte. Ele é um artista e exige respeito por isso. Tanto que costuma reagir com veemência aos atos de censura contra seus quadrinhos. E, durante o papo, eu fiz uma série de considerações sobre sua obra e ele disse que concordava com tudo e até fez adendos para ratificar a minha fala. Foi ótimo, deu-me tranquilidade para construir alguns raciocínios sobre sua obra que entraram no livro.

O Brasil tem uma história muito rica nos quadrinhos eróticos, mas atualmente é um tema praticamente que não encontramos mais nas bancas e livrarias. Você acredita que isso é simplesmente um amadurecimento do público ou falta de opções?
Acho que existe uma falta de visão editorial do mercado sobre o tema. E moralismo também, nesses tempos do insuportável politicamente correto. Mas não é só isso. Os quadrinhos de sexo no Brasil é uma tradição, vem desde os catecismos de Zéfiro na década de 1950 e passaram pela Edrel, M&C, Grafipar, Maciota, Press etc dos anos de 1960 a 1980. A partir de 1985, porém, com o fim da ditadura e a liberação total do nu frontal, para competir, os editores descambaram rumo à a pornografia. Mesmo assim, foi muito importante para o surgimento de jovens talentos, que aprenderam muito de anatomia nesses quadrinhos. Muita gente boa fez quadrinhos de sacanagem. Hoje, acho que ninguém mais aposta no gênero também por causa do paraíso pornográfico gratuito em que se transformou a Internet. Há espaço e público, creio, para álbuns eróticos bem elaborados. Fico feliz em saber que a Editora Noir pretende publicar trabalhos assim. Só espero que mandem propostas nesse sentido.

No livro você relata que Manara não “se encaixou” no universo dos super-heróis. Em contraposição até a pergunta anterior, será que falta no leitor de Marvel e DC uma maturidade ou mentalidade aberta para aceitar um artista tão transgressor?
Eu tenho medo dos leitores de super-heróis. Muitos – não todos – tendem a ser puristas demais, o que resvala, muitas vezes, em posturas moralistas, antilibertárias, conservadoras, reacionárias até… Por outro lado, é inegável que, nos últimos vinte anos, houve uma clara erotização dos uniformes das personagens femininas, um mecanismo para atrair atenção do sexo masculino e vender mais. Só que isso é feito com muito cuidado, sem ferir sensibilidades moralistas, principalmente dos puritanos da indústria. Agora, então, depois que a Marvel foi para a Disney, ferrou tudo. É tradição Disney zelar pelos bons costumes. Acho que Manara, nesse contexto, foi vítima do preconceito, da estigmatização de seus quadrinhos, do conceito de pornógrafo que lhe imputaram injustamente. Se ele é o artista, tem sacanagem ali, devem dizer. Tudo uma grande bobagem, uma idiotice sem tamanho.

Eu tenho reparado que os quadrinhos autorais estão voltando para um patamar de destaque na indústria, talvez até como foi nas décadas de 1960 e 1970. Você acredita que Manara é um influenciador direto dessa “nova geração”?
É um aspecto interessante a se observar. A obra de Manara é totalmente autoral, coerente e interligada. Ele ajudou, sem dúvida, a consolidar o mercado de álbuns adultos e fez com que vários mestres quase esquecidos fossem redescobertos editorialmente, como Guido Crepax. No segmento mais adulto, sem dúvidas que ele é uma influência importante para novos artistas.

manara_02Qual o residual que você espera que as pessoas tenham ao terminar de ler A Subversão Pelo Prazer?
Espero que concordem ao menos um pouco comigo, que passem a ver os trabalhos de Manara além do sexo e da suposta pornográfica, que entendam muito do que ele faz como manifestos de contestação política, de libertação da mulher como dona do próprio prazer, contra a hipocrisia das convenções sociais e a influência nefasta dessa doença social chamada religião, criada para explorar a crença das pessoas e controlar suas mentes, transformá-las em monstros de fanatismo.

E para encerrar: quais seus três trabalhos preferidos de Milo Manara?
A obra-prima de Manara é Rever as Estrelas. É uma graphic novel mágica, uma celebração à vida, à sua brevidade, à saudade dos amigos, ao desejo, de respeito à velhice. Depois, os dois álbuns que ele fez com roteiro de Hugo Pratt: Verão Índio e O Gaúcho.

Você vai encontrar com Gonçalo Junior e sua obra no sábado (23/09), no auditório da FAAL, durante o Festival Limeirense de Quadrinhos. Não existe inscrição para a palestra, basta chegar antecipadamente.

GONÇALO JUNIOR é jornalista. Trabalhou nos jornais Gazeta Mercantil e Diário de S. Paulo. Foi editor das revistas Personnalité (Trip) e Brasileiros. Colaborou em Playboy, Trip, Entrelivros, Bravo!, MAG e Nossa História e no jornal Folha de S. Paulo. É autor dos livros: O Homem-Abril (Opera Graphica), A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras), Enciclopédia dos Monstros (Ediouro), Alceu Penna e as Garotas do Brasil (Manole), E Benício criou a Mulher (Opera Graphica), Maria Erótica (Peixe Grande), A Morte do Grilo (Peixe Grande), Quem Samba tem Alegria (Civilização Brasileira) e É uma Pena não Viver (Planeta).

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